sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Iggy and The Stooges - Raw Power



Oi. Você já ouviu o disco Raw Power (1973), do Iggy and The Stooges? Eu acho que você não está perdendo nada, mas a maioria das pessoas acha que eu estou errado. Vamos ver o porquê.




Nessa época, o Stooges já tinha lançado dois disco, The Stooges (1969) e Fun House (1970), ambos tinham sido fracassos comerciais. A gravadora Elektra divulgou muito o mal esses álbuns e mandou a banda passear antes que eles lançassem o terceiro álbum (High five, Elektra!). Junte a isso o fato do baixista Dave Alexander estar lutando contra o alcoolismo e o vocalista Iggy Pop, contra o vício em heroína e o resultado é o fim do Stooges.


Por intermédio de David Bowie, amigo de Iggy e, de acordo com o próprio vocalista, uma das poucas pessoas que conseguia entender o que o Stooges fazia, Pop foi contratado pela Columbia Records e MainMan Management como artista solo e viajou até Londres para gravar um disco. Junto com ele, veio o guitarrista James Williamson, que tocou uma época com o Stooges no fim de 1970. Já na terra da Queen Beth, eles não conseguiram achar uma “cozinha” para a banda e, então, mandaram chamar os irmãos e, também, ex-Stooges Ron e Scott Asheton. Ron era guitarrista, mas não chegava nem aos pés do talento de Williamson, então ficou encarregado dos baixos (pegar ou largar). Scott era baterista e... continuou sendo baterista mesmo.


Iggy produziu e mixou o disco inteiro que, infelizmente, ficou uma merda (palavras da Columbia e não minhas)! O vocal e os solos de guitarra estavam claros, mas os outros instrumentos estavam todos embolados, porque Iggy mixou todos em um só canal (a mesa tinha 24!!!), com pouca noção de harmonia e tonalidade. Aí o chefe da MainMan deu um toquezinho, o Bowie vai remixar isso aqui, senão o álbum não vai ser lançado. Iggy, sabiamente, concordou. 

“Search and Destroy”, faixa 01, foi mantida com a mixagem de Iggy, mas Bowie remixou todas as outras sete músicas em um dia, em estúdio baratinho de Los Angeles. Bowie ouvia a música, conversava com Iggy, Iggy explicava o que ele queria, Bowie dava umas sugestões e botava a mão na massa. Acabou saindo um disco que a banda poderia se orgulhar. 


É um disco muito masculino, o que se divergia das tendências glam e sexualmente ambíguas da época, o que inclui o próprio David Bowie. O disco não foi bem recebido nem pelo público e nem pela crítica. E a banda não durou muito mais tempo. Tanto a Columbia quanto a MainMan demitiram os caras, depois que a grana que a banda recebeu como adiantamento foi gasta com drogas... Muitas drogas! O Stooges não suportou e depois de menos de um ano de lançamento de Raw Power, a banda se separou e a rapaziada foi tratar de se desintoxicar.


Apesar da baixa recepção inicial, o álbum ganhou, com o passar dos anos, o status de cult. Influenciou os primeiros punks de Nova York e Londres, o que rendeu a Iggy Pop o papel de padrinho do movimento. Kurt Cobain falou em inúmeras entrevistas que esse era seu disco favorito e que era a principal influência para o som do Nirvana. Johnny Marr, do Smiths, compara James Williamson ao Jimmy Page e diz que “é assim que o Darth Vader soaria se tocasse numa banda”. Steve Jones, do Sex Pistols, diz que foi com esse álbum que ele aprendeu a tocar. E a lista segue: Black Flag, Mötley Crue, Cee Lo Green, Red Hot Chili Peppers, Def Leppard, Guns n´ Roses… 


E apesar de eu (e o pessoal da Columbia), pessoalmente não gostar desse disco , eu não posso ignorar o fato de que Raw Power é um dos discos mais importantes da história do rock. Influenciou o punk, e influencia muitas bandas excelentes até hoje. 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sociedade da Grã-Ordem Kavernista - Sessão das 10



Oi. Você já ouviu o disco Sessão das 10 (1971), da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista? Então vai lavar o rosto e tomar um café que nós vamos conversar.



A Sociedade da Grã-Ordem Kavernista era uma banda formada por Sérgio Sampaio, Edy Star, Miriam Batucada e Raul Seixas. Sim, depois de Raulzito e os Panteras e antes da carreira solo, Raul formou essa banda com fortes influências dos discos Freak Out, de Frank Zappa, Sgt. Peppers Lonely Hearts, dos Beatles, e do movimento Tropicalista do final da década de 60. É a contribuição tardia do cantor para a Tropicália.


Nessa época, Raul, que era produtor musical pela gravadora americana CBS, se aproveitou de uma viagem do presidente da empresa para os EUA, para se juntar com o amigo Sérgio Sampaio, fazer uma banda, gravar e lançar um disco. Edy Star era um contratado da gravadora que Raul, apesar do ciúminho que carregava pela presença de palco do artista, chamou para se juntar a banda. Ele também queria uma mulher na trupe para equilibrar o nível de testosterona. Pensaram em Diana, mulher de Odair José, mas ela estava muito envolvida com o iê-iê-iê e com a música romântica. Pensou em chamar Lena Rios, mas chegou à CBS Miriam, uma sambista já conhecida de São Paulo. Sua voz e seu bom humor conquistaram Raul e Sérgio. Ficou com a vaga! Cada um cantou duas músicas sozinhos no disco, Raul e Sérgio dividem os microfones em três e Raul gravou praticamente todos os instrumentos.


Tudo bem gravado e composto! Tudo lindo! Mas por que, então, você nunca ouviu falar dessa superbanda pós-tropicalista? Porque a viagem do dono da CBS aos EUA acabou e quando ele descobriu o que havia acontecido na sua ausência não ficou nem um pouco feliz. A pergunta “WHAT IS THIS?!” vinda dos headquarters nos EUA também não ajudou a situação. Ninguém foi demitido, mas o resultado foi que quem comprou o disco comprou, quem não comprou não compra mais, porque a CBS mandou retirar a tiragem das lojas. Obviamente também não investiu em divulgação em rádio, nem nos programas musicais da época. Com isso, o disco acabou se tornando um fracasso de  público e crítica. Ficou fora de catálado até 1995, quando voltou já em formato CD.


Sessão das 10, o disco que escapou da censura militar e foi parado pela censura da própria gravadora, acabou sendo o único disco da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista e deve ser o disco mais plural da carreira de todos esses artistas. Traz seresta, chorinho, rock, samba, bolero e baião. Os LPs originais,hoje, se tornaram itens raríssimos, chegando a valer pequenas fortunas nas mãos de colecionadores.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Eagles - Hotel California



Oi. Você já ouviu o disco Hotel California (1976), do Eagles? Então se acomoda e relaxa que a gente tem que conversar.



Olha eu, mais uma vez vencendo preconceitos. Eu achava, na ignorância da juventude, que o Eagles era uma tremenda banda chata. Mas eu só conhecia a faixa título desse disco... que, na realidade, nem é chata, mas convenhamos que ela tocou a exaustão nos últimos 39 anos. E eu estava enganado. Eagles é uma banda legal! Basta ouvir esse, que é o quinto disco deles, para descobrir. 

Pode pular a primeira música, se quiser... você já conhece. Jogo o destaque para a faixa 02, New Kid in Town,  e a faixa 07, Pretty Maids All in Row, que possuem harmonias de voz que fazem o Bon Jovi e o Sambora parecerem cantores de Karaokê; e a faixa 03, Life in the Fast Lane, um rockão de arena, que marca um rompimento da banda com o seu passado de country rock para se firmar como banda de rock. Esse é o primeiro disco sem o Bernie Leadon, membro fundador da banda e mente por trás do estilo cowboy que a banda carregava, e o primeiro com o guitarrista Joe Walsh.

Entre o lançamento do quarto disco deles e esse se passaram 18 meses, dos quais 8 foram em estúdio gravando essa obra prima. Os caras se trancaram lá dentro e ficaram. Lá tinha geladeira, mesa de ping pong, patins (?!) e umas camas dobráveis. Eles chegavam a ficar dois, três dias seguidos em estúdio. 

E o resultado foi, usando a Califórnia como metáfora, um retrato obscuro da América pós-era paz e amor. A natureza superficial da fama, os excessos e seus custos, os desapontamentos, o pessimismo, foram os temas usados para a trilha sonora da decadência. “Nós andamos bem pelos últimos 200 anos, mas vamos ter que nos modificar se queremos continuar por aqui.” De acordo com Glenn Frey, um dos guitarristas da banda, o disco mostra “o que está por trás do sucesso, o lado escuro do paraíso.” 

Apesar de, como eu disse, essa música ter tocado até cansar, não tem como não falar dela. Se você agora voltar para a faixa 01 que você pulou no começo, você vai ouvir tudo isso: um lugar onde o mal espreita por trás das palmeiras, dos sorrisos, dos tapetes de “Welcome”. E ela possui também um dos solos mais icônicos do rock: o duelo de guitarras entre Joe Walsh e Don Felder.

O disco se firma como tudo aquilo que o punk, nessa época, queria destruir. Ele é bem produzido, bem escrito e bem executado. Tem harmonias de voz tão bem cuidadas quanto a cozinha do sua avó e tem solos de guitarra... muitos. Rendeu para Eagles dois Grammys (pelas faixas Hotel California e New Kid in Town), é o número 37 na lista da Rolling Stone dos 500 melhores discos da história e é, até hoje, o maior sucesso da banda. “Toda banda tem seu auge. Esse foi o nosso.”