Oi. Você já
ouviu o primeiro disco do Black Sabbath (1970)? Então pega uma bíblia e um
terço que você vai precisar de proteção.
Hoje a
gente vai falar de Heavy Metal. Ou hoje a gente vai falar de Black Sabbath? Ou
a gente vai falar do Capiroto? É difícil falar de um sem o outro (Heavy Metal e
Black Sabath... não o Capiroto). Esse disco pariu o Metal. Claro que outras
bandas, tipo o Led Zeppelin e o Deep Purple, já vinham trabalhando um estilo mais
pesado de rock nessa época. Mas só o Sabbath, mesmo que ainda carregando fortes
influências do blues, pode ser identificado até hoje por qualquer headbanger,
desde a nova geração até o cara mais true, cabeludo, que veste jaqueta de couro
e coturno em pleno verão/Brasil/tropicaliente (mão na consciência,amigo. Isso
não deve ser saudável!), como verdadeiro e puro Metal.
A criação
do estilo foi uma acidente, vítima de várias circunstâncias. Para começar, o
berço do Black Sabbath é a cidade de Birminghan, na Inglaterra; uma cidade
medieval, que acabou se tornando um dos grandes pólos da Revolução Industrial,
com todas as fábricas gigantes, poluição e demissões em massa que se tem
direito. E se isso já não deixasse aquele clima deprê, Sazon para temperar música
boa, a cidade foi fortemente bombardeada pelos alemães na Segunda Guerra. Junte
esse elementos e você não vai querer extravasar, liberar e jogar tudo para o ar,
em cima do trio elétrico. Você tem grandes chances de desenvolver uma natureza
mais sombria.
Tem também
o fato que o Tony Iommi, guitarrista da banda, antes do sucesso, perdeu a ponta
de dois dedos da mão direita (a que ele usava para fazer os riffs, uma vez que
é canhoto) em um acidente na fábrica que ele trabalhava (isso mesmo! E se
tornou um dos maiores guitarristas da história! Qual é a sua desculpa?!). Inspirado
pelo disco de um cara chamado Django Reinhardt, um guitarrista que só tinha dois dedos, Tony decidiu
não abandonar seu sonho e foi buscar maneiras de superar a sua deficiência.
Entre idéias boas e outras nem tão boas, ele acabou: 1) trocando as cordas da
sua guitarra por cordas de banjo, que eram mais finas; e 2) afrouxando a
afinação da guitarra (e, por consequência, abaixando o tom), para que as cordas
ficassem mais macias. Isso resultou em um som muito característico do Sabbath
e, por conseguinte, do Heavy Metal. (Só a história do Tony, eu acho que já dava
um post para esse blog, mas vai ficar para a próxima. Prossigamos.)
O baixista Geezer Butler não era
baixista. Ele era guitarrista e só trocou para o baixo porque Iommi disse que
não iria tocar numa banda com outro guitarrista. Resultado: ele não sabia fazer
linhas de baixo e, então, ficava copiando os riffs de guitarra no seu baixo.
Isso foi outro fato determinante para definir o peso do som.
Mas só esses fatos ainda não
podem levar os créditos pela banda do Ozzy ter se diferenciado dos seus
contemporâneos. Eles conseguiram achar aquela maldade, aquela perversidade,
aquela psicopatia escondida no blues e beberam nessa fonte até chamar urubu de
meu louro. Talvez dessa inspiração venha o relacionamento com o Sete-pele,
Pé-de-cabra, Encardido, Belzebu. Isso e o fato de temas como maldade, ocultismo,
paganismo, morte e escuridão estarem espalhadas nas letras de todo o lado A do
disco. A primeira música, que se chama Black Sabbath (Black Sabbath, do Black
Sabbath, do disco Black Sabbath), é extremamente sinistra e obscura. Dá para
sentir o cheiro de enxofre. “Big black shape with eyes of fire/ Telling people their desire/ Satan's
sitting there, he's smiling/ Watches those flames get higher and higher/ Oh no,
no, please God help me!” : )
O lado B é menos maldoso e mais
blues e evidencia um pouco a falta de experiência dos músicos, que ainda eram
bem jovens (o Ozzy tinha só 22 primaveras). Os riffs de Tony perdem um pouco a
originalidade. Na última faixa, “Warning”, um cover de uma banda pouco
conhecida, chamada Retaliation (ou Aynsley Dunbar Retaliation), a palavra “warn”
nem é mencionada. O Ozzy ouviu a letra errado.
Para finalizar o porquê do disco
ser como é, vem o fato dele ter sido gravado ao vivo, em dois dias (um para
gravar e outro para mixar) e em um estúdio que não era o melhor, mas era o que
dava para pagar. E nada disso tira a graça de Black Sabbath (só evidencia o
poder criativo dos artistas por trás dele) e nem o peso revolucionário que ele
tem, afinal não é todo o dia que nasce o primeiro disco de Heavy Metal do
mundo.

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