segunda-feira, 2 de março de 2015

David Bowie - The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars



Oi. Você já ouviu o disco The Rise and Fall of Ziggy Stardust and The Spiders from Mars (1972), do David Bowie? Então larga o que você está fazendo, que esse disco é interessante.



O álbum é um livro, um teatro, que conta a história de Ziggy Stardust, a representação humana de um alienigena andrógino vindo de Marte para salvar a Terra. Esta vai se auto destruir em cinco anos, como narra a primeira faixa do disco “Five Years”, devido à extinção de recursos naturais, o desejo que as pessoas têm de possuir coisas desnecessárias e a perda de contato delas com a realidade. 


Mas a mensagem de amor e esperan­ça, que Ziggy canta na faixa 02, “Soul Love”, e na faixa 04, “Starman” (“There´s a Starman waiting in the sky...), vai para o vinagre, quando ele acaba formando uma banda (The Spiders from Mars) e cede aos exageros (drogas) e ao glamur (sexo) da fama, como retrata a sexta faixa, “Lady Stardust”. E, consumido pelo seu próprio ego, na faixa 09, “Ziggy Stadust” (que resume a ópera), falha na missão. Aliás, nessa faixa, através da decadência do protagonista, Bowie apresenta mais uma crítica à glamurização da fama e a ele próprio, retratando egos super inflados, a banalização do sexo e vidas desregradas.


Ele comete o suicídio no fim do disco (Rock´n´Roll Suicide), sobre o palco que o apresentou aos seres humanos e fumando cigarros que representam a sua vida se extinguindo em cinzas, sendo destruído pelos seus exageros e pelos fãs  a quem ele inspirou. 


Nesse disco, David Bowie se apresenta como um ser andrógino, define o que significa Glam rock e redefine o papel masculino no rock. Foi um marco, eu diria, também para a ficção científica, uma vez que apresenta, além de doses colossais de ambiguidade sexual,  imagens do espaço sideral e extraterrestres. Foi listado como número 35, na lista da Rolling Stone dos 500 melhores discos já lançados.


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Iggy and The Stooges - Raw Power



Oi. Você já ouviu o disco Raw Power (1973), do Iggy and The Stooges? Eu acho que você não está perdendo nada, mas a maioria das pessoas acha que eu estou errado. Vamos ver o porquê.




Nessa época, o Stooges já tinha lançado dois disco, The Stooges (1969) e Fun House (1970), ambos tinham sido fracassos comerciais. A gravadora Elektra divulgou muito o mal esses álbuns e mandou a banda passear antes que eles lançassem o terceiro álbum (High five, Elektra!). Junte a isso o fato do baixista Dave Alexander estar lutando contra o alcoolismo e o vocalista Iggy Pop, contra o vício em heroína e o resultado é o fim do Stooges.


Por intermédio de David Bowie, amigo de Iggy e, de acordo com o próprio vocalista, uma das poucas pessoas que conseguia entender o que o Stooges fazia, Pop foi contratado pela Columbia Records e MainMan Management como artista solo e viajou até Londres para gravar um disco. Junto com ele, veio o guitarrista James Williamson, que tocou uma época com o Stooges no fim de 1970. Já na terra da Queen Beth, eles não conseguiram achar uma “cozinha” para a banda e, então, mandaram chamar os irmãos e, também, ex-Stooges Ron e Scott Asheton. Ron era guitarrista, mas não chegava nem aos pés do talento de Williamson, então ficou encarregado dos baixos (pegar ou largar). Scott era baterista e... continuou sendo baterista mesmo.


Iggy produziu e mixou o disco inteiro que, infelizmente, ficou uma merda (palavras da Columbia e não minhas)! O vocal e os solos de guitarra estavam claros, mas os outros instrumentos estavam todos embolados, porque Iggy mixou todos em um só canal (a mesa tinha 24!!!), com pouca noção de harmonia e tonalidade. Aí o chefe da MainMan deu um toquezinho, o Bowie vai remixar isso aqui, senão o álbum não vai ser lançado. Iggy, sabiamente, concordou. 

“Search and Destroy”, faixa 01, foi mantida com a mixagem de Iggy, mas Bowie remixou todas as outras sete músicas em um dia, em estúdio baratinho de Los Angeles. Bowie ouvia a música, conversava com Iggy, Iggy explicava o que ele queria, Bowie dava umas sugestões e botava a mão na massa. Acabou saindo um disco que a banda poderia se orgulhar. 


É um disco muito masculino, o que se divergia das tendências glam e sexualmente ambíguas da época, o que inclui o próprio David Bowie. O disco não foi bem recebido nem pelo público e nem pela crítica. E a banda não durou muito mais tempo. Tanto a Columbia quanto a MainMan demitiram os caras, depois que a grana que a banda recebeu como adiantamento foi gasta com drogas... Muitas drogas! O Stooges não suportou e depois de menos de um ano de lançamento de Raw Power, a banda se separou e a rapaziada foi tratar de se desintoxicar.


Apesar da baixa recepção inicial, o álbum ganhou, com o passar dos anos, o status de cult. Influenciou os primeiros punks de Nova York e Londres, o que rendeu a Iggy Pop o papel de padrinho do movimento. Kurt Cobain falou em inúmeras entrevistas que esse era seu disco favorito e que era a principal influência para o som do Nirvana. Johnny Marr, do Smiths, compara James Williamson ao Jimmy Page e diz que “é assim que o Darth Vader soaria se tocasse numa banda”. Steve Jones, do Sex Pistols, diz que foi com esse álbum que ele aprendeu a tocar. E a lista segue: Black Flag, Mötley Crue, Cee Lo Green, Red Hot Chili Peppers, Def Leppard, Guns n´ Roses… 


E apesar de eu (e o pessoal da Columbia), pessoalmente não gostar desse disco , eu não posso ignorar o fato de que Raw Power é um dos discos mais importantes da história do rock. Influenciou o punk, e influencia muitas bandas excelentes até hoje. 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sociedade da Grã-Ordem Kavernista - Sessão das 10



Oi. Você já ouviu o disco Sessão das 10 (1971), da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista? Então vai lavar o rosto e tomar um café que nós vamos conversar.



A Sociedade da Grã-Ordem Kavernista era uma banda formada por Sérgio Sampaio, Edy Star, Miriam Batucada e Raul Seixas. Sim, depois de Raulzito e os Panteras e antes da carreira solo, Raul formou essa banda com fortes influências dos discos Freak Out, de Frank Zappa, Sgt. Peppers Lonely Hearts, dos Beatles, e do movimento Tropicalista do final da década de 60. É a contribuição tardia do cantor para a Tropicália.


Nessa época, Raul, que era produtor musical pela gravadora americana CBS, se aproveitou de uma viagem do presidente da empresa para os EUA, para se juntar com o amigo Sérgio Sampaio, fazer uma banda, gravar e lançar um disco. Edy Star era um contratado da gravadora que Raul, apesar do ciúminho que carregava pela presença de palco do artista, chamou para se juntar a banda. Ele também queria uma mulher na trupe para equilibrar o nível de testosterona. Pensaram em Diana, mulher de Odair José, mas ela estava muito envolvida com o iê-iê-iê e com a música romântica. Pensou em chamar Lena Rios, mas chegou à CBS Miriam, uma sambista já conhecida de São Paulo. Sua voz e seu bom humor conquistaram Raul e Sérgio. Ficou com a vaga! Cada um cantou duas músicas sozinhos no disco, Raul e Sérgio dividem os microfones em três e Raul gravou praticamente todos os instrumentos.


Tudo bem gravado e composto! Tudo lindo! Mas por que, então, você nunca ouviu falar dessa superbanda pós-tropicalista? Porque a viagem do dono da CBS aos EUA acabou e quando ele descobriu o que havia acontecido na sua ausência não ficou nem um pouco feliz. A pergunta “WHAT IS THIS?!” vinda dos headquarters nos EUA também não ajudou a situação. Ninguém foi demitido, mas o resultado foi que quem comprou o disco comprou, quem não comprou não compra mais, porque a CBS mandou retirar a tiragem das lojas. Obviamente também não investiu em divulgação em rádio, nem nos programas musicais da época. Com isso, o disco acabou se tornando um fracasso de  público e crítica. Ficou fora de catálado até 1995, quando voltou já em formato CD.


Sessão das 10, o disco que escapou da censura militar e foi parado pela censura da própria gravadora, acabou sendo o único disco da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista e deve ser o disco mais plural da carreira de todos esses artistas. Traz seresta, chorinho, rock, samba, bolero e baião. Os LPs originais,hoje, se tornaram itens raríssimos, chegando a valer pequenas fortunas nas mãos de colecionadores.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Eagles - Hotel California



Oi. Você já ouviu o disco Hotel California (1976), do Eagles? Então se acomoda e relaxa que a gente tem que conversar.



Olha eu, mais uma vez vencendo preconceitos. Eu achava, na ignorância da juventude, que o Eagles era uma tremenda banda chata. Mas eu só conhecia a faixa título desse disco... que, na realidade, nem é chata, mas convenhamos que ela tocou a exaustão nos últimos 39 anos. E eu estava enganado. Eagles é uma banda legal! Basta ouvir esse, que é o quinto disco deles, para descobrir. 

Pode pular a primeira música, se quiser... você já conhece. Jogo o destaque para a faixa 02, New Kid in Town,  e a faixa 07, Pretty Maids All in Row, que possuem harmonias de voz que fazem o Bon Jovi e o Sambora parecerem cantores de Karaokê; e a faixa 03, Life in the Fast Lane, um rockão de arena, que marca um rompimento da banda com o seu passado de country rock para se firmar como banda de rock. Esse é o primeiro disco sem o Bernie Leadon, membro fundador da banda e mente por trás do estilo cowboy que a banda carregava, e o primeiro com o guitarrista Joe Walsh.

Entre o lançamento do quarto disco deles e esse se passaram 18 meses, dos quais 8 foram em estúdio gravando essa obra prima. Os caras se trancaram lá dentro e ficaram. Lá tinha geladeira, mesa de ping pong, patins (?!) e umas camas dobráveis. Eles chegavam a ficar dois, três dias seguidos em estúdio. 

E o resultado foi, usando a Califórnia como metáfora, um retrato obscuro da América pós-era paz e amor. A natureza superficial da fama, os excessos e seus custos, os desapontamentos, o pessimismo, foram os temas usados para a trilha sonora da decadência. “Nós andamos bem pelos últimos 200 anos, mas vamos ter que nos modificar se queremos continuar por aqui.” De acordo com Glenn Frey, um dos guitarristas da banda, o disco mostra “o que está por trás do sucesso, o lado escuro do paraíso.” 

Apesar de, como eu disse, essa música ter tocado até cansar, não tem como não falar dela. Se você agora voltar para a faixa 01 que você pulou no começo, você vai ouvir tudo isso: um lugar onde o mal espreita por trás das palmeiras, dos sorrisos, dos tapetes de “Welcome”. E ela possui também um dos solos mais icônicos do rock: o duelo de guitarras entre Joe Walsh e Don Felder.

O disco se firma como tudo aquilo que o punk, nessa época, queria destruir. Ele é bem produzido, bem escrito e bem executado. Tem harmonias de voz tão bem cuidadas quanto a cozinha do sua avó e tem solos de guitarra... muitos. Rendeu para Eagles dois Grammys (pelas faixas Hotel California e New Kid in Town), é o número 37 na lista da Rolling Stone dos 500 melhores discos da história e é, até hoje, o maior sucesso da banda. “Toda banda tem seu auge. Esse foi o nosso.”



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Bruce Springsteen - The Wild, The Innocent & The E Street Shuffle

Oi. Você já ouviu o disco The Wild, The Innocent & The E Street Shuffle (1973), do The Boss, Bruce Springsteen? Então daqui pouco você continua o que você está fazendo. A gente precisa conversar.



Quando eu criei esse blog meu intuito era, entre outras coisas, me obrigar a conhecer material novo (mesmo que velho!). Isso acabou me dando a oportunidade de quebrar velhos preconceitos. Eu só resolvi escrever sobre esse disco porque um amigo muito querido, Sérgio Fernandes, é um grande fã do The Boss e, mesmo eu dizendo que não gostava do som que o Bruce Springsteen fazia, sempre insistia para que eu desse uma chance, para que eu fosse além do “Born in the USA”. Pois bem, o dia chegou e que surpresa boa eu encontrei.

Ao contrário da maioria dos disco que eu já escrevi a respeito aqui no blog, esse não foi na época um sucesso de vendas, mas é, hoje, um dos favoritos dos fãs. Apenas oito meses depois da sua estréia com um disco folk rock, Bruce Springsteen amplia seus horizontes em um disco que traz influências de jazz, funk, soul, além do habitual folk rock. Em seu segundo disco, ele parece se levar mais a sério também. As músicas ficaram mais ambiciosas, mais longas, mais românticas, sem perder a assinatura do autor. As letras vagueiam sobre as esquinas de Nova Jersey e as ruas movimentadas de Nova York e formam o retrato de um artista que, ainda que cheio de nostalgia, está seguindo em frente.

Como coloca o jornalista Dave Lifton, as duas músicas que abrem o disco, “The E Street Suffle” e “4th of July, Asbury Park (Sandy)” trazem um feeling cinematográfico perfeito. A primeira sendo a típica cena do baile de formatura no ginásio da escola, e a segunda, o momento em que o mocinho fala para a namorada que vai deixar a cidade e buscar o que mais existe no mundo afora. 

“Kitty´s Back” vem em seguida, trazendo forte influência de jazz. Metais, solos de guitarra e teclado (por David Sancious, o Boss do The Boss – ele morava na E Street, que acabou dando o nome para a banda) e voz impecável. “Wild Billy´s Circus Story” fecha o primeiro lado do disco no estilo circense itinerante que dá nome à música, com Springsteen no violão, acompanhado de uma tuba, bandolim, acordeão e percussão.

O lado B contém só três músicas, mas tem quase 23 minutos. Duas delas reforçam o lado nova iorquino do disco, “Incident on 57th Street” e “New York City Serenade”. No meio dessas duas, há a belíssima “Rosalita (Come Out Tonight)”, música que fechou os shows de Bruce Springsteen até 1988.


Nunca de novo o mundo viu The Boss tão eclético, bebendo de tantas fontes e mesclando ritmos com tanta maestria. Muito disso se deve à saída de alguns membros originais da E Street Band. Vini “Mad Dog”, baterista, saiu no braço com o irmão do empresário do grupo - foi demitido. Ernest “Boom” Carter e David Sancious, baterista substituto do Mad Dog e tecladista respectivamente, saíram em 1974 para formam um grupo de jazz, o Tone. Os novos membros da banda acabaram aguçando o lado mais roqueiro de Springsteen, que nunca voltou a fazer outro álbum como esse, ironicamente um dos melhores na história do rock. 


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Janis Joplin - Pearl



Oi. Você já ouviu o disco Pearl (1971), da Janis Joplin? Então pára o que você está fazendo e vai lá no player no fim dessa postagem e ouve. A gente precisa conversar.



Pearl é o segundo disco solo de Janis e o primeiro com a banda Full Tilt Boogie Band. Na época do início do processo de gravação, ela, que estava sempre na beira do precipício com o seu vício em drogas, álcool e natureza passional, parecia (ênfase em “parecia”) estar, finalmente, dando um rumo em sua vida. Estava mais sossegada e até noiva. “Sossegada”, na vida de Janis Joplin, tem um significado relativo. Na capa do álbum, aliás, ela aparece com seus habituais companheiros – bebida e cigarro.

O álbum tem um som mais enxuto, mais limpo do que seus discos anteriores com a Big Brother and the Holding Company (sua antiga banda), devido, tanto, à mudança de seus companheiros músicos quanto à produção de Paul A. Rothchild. Ele era, na época, o produtor do The Doors, banda que acabou por deixar seu trabalho muito conhecido. Sua preocupação nesse disco era fazer o que fosse possível para extrair o máximo da potência e das nuances da voz de Janis, que ele chamava de “o sonho de qualquer produtor”, e transformá-la na maior cantora de todos os tempos.

Janis aprovou e compôs pessoalmente cada uma das nove faixas desse disco, incluindo o hit “Me and Bobby Mcgee”; “Trust Me”, de Bobby Womack, que foi escrita especialmente para ela; “Get It While You Can”, que comprova as intenções do produtor do disco de mostrar a potência e a versatilidade da voz de Janis; e até “Buried Alive in the Blues”, que permaneceu uma faixa instrumental, uma vez que Janis jamais chegou a gravar a linha vocal da música - a última que faltava para completar o disco.

A cantora foi encontrada morta no chão ao lado de sua cama, no dia 7 de outubro de1970, no Landmark Motor Hotel, onde estava hospedada, pelo seu empresário John Cooke, que estranhou a sua ausência na sessão de gravações de “Buried Alive in the Blues”. A causa da morte foi uma overdose de heroína, possivelmente combinada com bebidas alcoólicas. Acredita-se que ela tenha recebido uma dose mais forte da que costumava receber de seu traficante, uma vez que diversos casos de overdose de heroína foram relatados na mesma época e nessa mesma região. Ela tinha 27 anos.

Pearl alcançou o número 125 na lista dos 500 melhores discos de todos os tempos, da revista Rolling Stone. Seja no estilo hippie, gospel, country ou soul, Janis nunca soou melhor do que nesse trabalho. É uma pena que ela não tenha vivido para ver seu grande triunfo.